Holistika

Um espaço que trata da saúde da alma, da mente e do corpo

Arquivo para Palmeiras

Entrevista – Áureo Augusto: medicina, arte e meio ambiente

Aureo07

Aureo Augusto, médico

A Chapada Diamantina, localizada no centro do Estado da Bahia, guarda inúmeras riquezas em seu cenário. A região, no século XIX, foi o olho do furacão de uma corrida de garimpo de diamantes. Uma de suas mais acolhedoras cidades, Palmeiras (distante 445 quilômetros de Salvador), esbanja belas paisagens compostas por montanhas, rios, cachoeiras, pássaros exóticos e lindas orquídeas selvagens. Quem vai lá não se arrepende e volta para casa com muitas histórias para contar. A partir de Palmeiras, seguindo-se por 18 quilômetros de uma estrada de terra, chega-se ao Vale do Capão, cuja paisagem cheia de neblina pela manhã contrasta com o sol forte do meio-dia. Um de seus cidadãos mais ilustres concedeu entrevista para Holistika. O médico naturista Aureo Augusto (aureoaug@terra.com.brfala de sua experiência como artista plástico, da importância da medicina preventiva e da beleza de ser humano. A entrevista será publicada, parcialmente, na edição de domingo (1º/11/2009) do Jornal A TARDE

>>>>>>>

Por Marcia Gomes

Pingue-pongue com Aureo Augusto

1. Você se considera um médico eminentemente naturista ou aborda práticas da alopatia?

Resposta: Sou eminentemente naturista, conquanto em hipótese alguma faça oposição à alopatia. Há dois anos atuando no serviço público, o que tem sido uma experiência maravilhosa, sou obrigado a usar medicações alopáticas, pois aqui o serviço não é meu e sim da população. Seja como for, o PSF (Posto de Saúde da Família) do Vale do Capão é um lugar onde as pessoas podem escolher entre tratar-se naturalmente ou alopaticamente, ou, até, com uma combinação dos dois sistemas. É instigante.

2. Quando e por que Áureo Augusto decidiu sair da cidade grande e foi viver na natureza?

R: A natureza é uma atração. Talvez tenha a ver com determinados sentimentos um tanto indetermináveis e que não são apenas individuais. A nossa sociedade enveredou por um caminho doloroso. Ela mesma buscou (e busca) um retorno a algo que contribua para o reatamento de velhos laços. Na Inglaterra recém-entrada na Revolução Industrial, derrubar vetustas árvores chegou a ser uma moda. Uma vez que as consequências de tais atos começaram a se manifestar, a moda reverteu-se. Mas esta moda não é apenas expressão de um modismo e sim de uma alma carente de reconhecer plenamente o seu lugar no mundo. Por isso, tantos, por moda ou modismo (e muitos por fuga, registre-se) voltaram-se para a natureza. Eu, entretanto, entre tantos.

3. O que te move em direção ao exercício da cura?

R: A doença! Desde muito criança queria ser médico. Mas a experiência de padecer de sintomas desagradáveis teve um papel essencial. 

4. Você está atualmente trabalhando no PSF. Fale um pouco sobre essa experiência.

R: A ideia de “Estratégia de Saúde da Família” é muito boa. Um posto onde além do atendimento ambulatorial a equipe está, por assim dizer, obrigada a atuar na educação para a saúde e na prevenção é algo, para dizer o mínimo, necessário. Tenho a sorte de contar com uma equipe excelente. O coordenador do posto é o enfermeiro Gleiton Ulhôa – que, quando me encontrou, a primeira coisa que disse foi que aquele posto não estava cumprindo suas funções por não atuar fora do atendimento ambulatorial, coisa que muito me alegrou. As agentes comunitárias de saúde – necessária e bem concebida interface entre o SUS e a população – são pessoas dedicadas e com as quais já mantinha relações por ser médico e parteiro. A auxiliar de enfermagem, Marilza Nery, é uma aliada de longa data nos atendimentos no Vale do Capão e por aí vai. A realidade é que temos feito um trabalho e tanto. No momento, estão em andamento mais de 10 projetos que atuam junto à comunidade. Conseguimos apoio técnico da UFBA (Faculdade de Farmácia), já lançamos dois livretos de uma série intitulada “Cadernos da Saúde do PSF”, o primeiro sobre auto-medicação e o segundo sobre acidentes odontológicos; o terceiro está pronto, e logo sairemos atrás do patrocínio. Este é um ponto importante. O município de Palmeiras é pobre e todas as nossas ações têm se realizado sem custos para o município. Estes cadernos são publicados graças a empresas da região que nos patrocinam. Nos dias 22 e 23 de outubro tivemos o “II Encontro de Profissionais do PSF do Vale do Capão”. Somos o único PSF que propõe e realiza um encontro como este. Desta forma, adquirimos e partilhamos conhecimentos que possam contribuir com a nossa população. O trabalho tem sido, às vezes, extenuante, mas os resultados nos alegram sobremaneira.

*
"São Francisco e o sultão" (78 cm x 81 cm). Acrílica, ferro velho, pedaço de caveira de cavalo, costelas de cachorro (encontradas nos Gerais). Moldura feita com madeira de porta e cachorro de telhado de casa antiga do Vale do Capão | Arquivo pessoal

"São Francisco e o sultão" (78 cm x 81 cm). Acrílica, ferro velho, pedaço de caveira de cavalo, costelas de cachorro (encontradas nos Gerais). Moldura feita com madeira de porta e cachorro de telhado de casa antiga do Vale do Capão | Arquivo pessoal

5. Você é famoso por transformar o insuspeitável em belo. Sua arte quebra o convencional e utiliza molduras formadas por galhos, fragmentos de janelas e outros elementos. Qual a real intenção em investir em materiais inovadores para compor seus quadros?

R: Descobri ao longo de minha vida que sou uma pessoa muito cheia de defeitos. No entanto, isso não faz de mim um ser desprezível. Aquilo que é rejeitado pode ser uma força, luz ou fonte de poesia. Uma vez, ainda estudante de Medicina e vendendo artesanato na rua, uma mulher interessou-se por um colar que achou lindo. Porém, se deu conta de que era feito com vidro que eu achara na praia (o mar vai desgastando o vidro, que fica fosco e lindo) e me jogou isso na cara. Então, com destempero juvenil, lhe respondi que ela passaria por aquele vidro e nem ligaria para isso, enquanto eu via nele a possibilidade de arte e depois venderia a ela mesma, cega, por um bom preço. A mulher comprou! Devo dizer que antes de mais nada o que faço em arte é mover-me pelo prazer. Gosto de pintar, colar, desenhar… O demais está apenso a isto. O substrato é a crença na beleza.

6. Qual a ligação entre a arte e a medicina?

R: Total. “Ars Medica”, se dizia no passado. Medicina é arte. O que não quer dizer que todos os médicos sejam artistas. Lidar com pessoas implica reconhecer nas pessoas que lidamos a qualidade de serem pessoas. Há a técnica, como em arte também, mas a técnica deverá ser conduzida por elementos mais sutis. Penso que todo médico deveria ter outra arte (seja fazer ou escutar música, fazer ou contemplar pinturas, poemas, etc.) para melhorar sua competência ausculatória da alma do outro.

7. Cite alguns dos piores males para a saúde do homem moderno.

"Perscrutando o vazio" | Arquivo pessoal

"Perscrutando o vazio" | Arquivo pessoal

R: O pior de todos é a ruptura com a natureza íntima. Mas também (e talvez consequência) temos a pressa louca em resolver as coisas. O comer correndo e sem contemplação. O sedentarismo que, felizmente, vem perdendo espaço. Os interesses econômicos (que são justos, mas não devem ser colocados acima do interesse na saúde). Seguramente tem mais, mas não me vêm agora à mente.

8. De que maneira os sentimentos e pensamentos desarmoniosos se transformam em doenças?

R: Os estudos demonstram que o ressentimento, embora não seja causa de câncer, tem um papel estimulador. Pensamentos negativos alteram o sistema imunológico; sorrisos melhoram a circulação cerebral; cara fechada piora e por aí vai. Também devemos notar que a organização corporal se atém a uma organização energética e esta sofre desarranjos na medida da nossa desarmonia de pensamentos. Entenda-se que isso não significa que a coisa seja simples. Ninguém tem desarmonia mental porque em plena consciência decidiu isso. Não é tarefa fácil penetrar-se a si mesmo o suficiente para ver os próprios desvios. Além disso, infelizmente, muitos que aprenderam que sentimentos e pensamentos interferem na saúde passam a usar isso superficialmente, e se julgam protegidos quando não estão.

9. A Terra está atualmente reagindo, como nunca, às agressões impingidas ao meio ambiente. Você é um otimista com relação à transformação do planeta?

R: Sou. Tenho visto numerosas doenças serem resolvidas quando ao organismo é dada a condição necessária. Penso que o ser humano está avançando rapidamente no sentido de se dar conta. Também vejo que os organismos (incluindo a Terra) têm grande conpetência regenerativa. Claro que precisamos andar mais rápido nesta direção.

"A dança do espírito do beija-flor" | Arquivo pessoal

"A dança do espírito do beija-flor" | Arquivo pessoal

10. O que te parece belo no ser humano e o que te parece terrível?

R: Sua enorme capacidade de amar. Somos seres incríveis, maravilhosos. Somos seres dotados de dons luminosos. Somos luz. Nossa capacidade de pensar, elaborar mentalmente, ter ideias e lutar por elas, termos capacidade de consciência e de individualidade são o que de mais extraordinariamente belo temos. E isso mesmo é o mais terrível. Grato por estas perguntas, que me fizeram refletir.

   
* Nota sobre a pintura “São Francisco e o Sultão”: o santo foi a uma das Cruzadas e dedicou-se a convencer os cruzados a não lutarem, o que muito os desagradou. Então nas guerras foram massacrados. Mas o sultão ficou tão impressionado com Francisco que deu ordem a que ninguém o incomodasse e por isso foi o único cruzado que conseguiu visitar os lugares santos naquele momento. A palavra em grego, biostanatos (vida/morte) é o motivo real do quadro.
 
Aureo Augusto Caribé de Azevedo, soteropolitano, nascido em jan/1953, é médico formado pela UFBa. Artista plástico, participou de diversas exposições individuais e coletivas em Salvador e em Feira de Santana. Como escritor, colaborou para publicações da área de saúde (Jornal do Conselho Federal de Medicina – Brasília; Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental –RJ; Le Lierre et le Coudrier -França etc.) e outras (Jornal A Tarde – Bahia; Uno Mismo – Chile; Gazeta do Vale – Bahia etc.) com artigos sobre história, filosofia, autoconhecimento, política, crônicas, contos e poemas.

 Tem livros publicados na área de saúde (“Liberte-se da Prisão de Ventre” – Ed. Cultrix; Orientação Alimentar – Ed. Deva etc.), e literatura (poesia, contos, crônicas).

Reside na zona rural de Palmeiras (Vale do Capão, distrito de Caeté-Açu), na Chapada Diamantina-Bahia, há 30 anos, onde trabalha com clínica médica, educação para a saúde, promoção da educação e cultura e associativismo.

É criador do Pralerbem, projeto de produção, edição e distribuição gratuita de livros entre estudantes da escola pública com a finalidade de estimular a produção literária e a leitura.

Trabalha há 2 anos no PSF (Posto de Saúde da Família) do Vale do Capão onde além do atendimento ambulatorial participa de atividades educativas em saúde e de prevenção de doenças.

—————

Veja outros posts sobre a Chapada Diamantina em:

Exposição de Fotografia da Chapada Diamantina – Rui Rezende

II Encontro de Profissionais de PSF do Vale do Capão

II Encontro de Profissionais de PSF do Vale do Capão

Por iniciativa da equipe do Posto de Saúde da Família doVale do Capão e o apoio da DIRES 27, da Escola de Formação Técnica em Saúde e da Secretaria da Saúde de Palmeiras, ocorrerá nos dias 22 e 23 de outubro, naquela localidade, o II Encontro de Profissionais de PSF do Vale do Capão.VALE_D~1

As palestras serão sobre “Humanização da Saúde”.

Público-alvo: Médicos, Enfermeiros e Dentistas da área da 27a DIRES (Seabra, na Chapada Diamantina).

PROGRAMAÇÃO

>Dia 22, quinta-feira: 9h:

Palestra: “Humanizar o Atendimento”, por Maria Caputo (Diretoria de Gestão da Educação e do Trabalho na Saúde-SESAB).

12h: Almoço.

12:30h: Espaço para práticas de relaxamento e massagem. O participante poderá receber massagem de relaxamento, Reiki, ou outras práticas por profissional residente no Vale do Capão. As vagas são limitadas.

14h: Apresentação – “Como Estamos Cuidando das Pessoas com Hipertensão em nossa Área de Atuação pela Equipe do PSF-Vale do Capão”

15h: “Stress e Qualidade de Vida”, por Dr. Sérgio Carneiro (LAC-Seabra).

16:30h: “Fitoterapia, Plantas Medicinais e SUS”, por Dra. Mayara Silva(SESAB/UFBa).

17:30h: “O SUS é uma escola – o Curso Técnico dos ACS, uma Proposta de Inclusão”, por Dra. Tércia Lima (Escola de Formação Técnica em Saúde-Ba).

>Dia 23, sexta-feira:

7:30h: Prática de Tai-chi-chuan.

9h: Debate – “Lidando com o Cliente Difícil. 15 minutos de introdução” por Dr. Aureo Augusto (PSF-Vale do Capão, Palmeiras) e em seguida debate com todos os participantes.

10h: “Dermatologia Sanitária”, pela Dra. Shirlei Moreira (Ministério da Saúde).

12:30h: Espaço para práticas de relaxamento de massagem.

14h: “Uma Medicina para Escravos”, por Dr. Aureo Augusto.

15h: “Epilepsia, o Atendimento Pensando na Pessoa”, pela Dra. Vera Lúcia Rocha (Ministério da Saúde).

16:30h: “A Política Estadual da Atenção Básica em Saúde para o Estado da Bahia”, por Dr. Ricardo Heinzelmann (SESAB).

17:30h: “A Síndrome Metabólica”, por Dr. Manoel Alfonso (Clínica Santa Bárbara-Seabra).

Informações: PSF-Vale do Capão, telefone (orelhão): (75)33441030. 27a DIRES: (75)33311623.

———————

Material enviado pelo médico Aureo Augusto, por e-mail