Holistika
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Bruxismo – Um pesadelo na boca
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Disfunção atinge cerca de 40% da população mundial e causa destruição de dentes e dores diversas
Por Marcia Gomes
O corpo humano sempre encontra alternativas de dizer não às pressões que lhe são impostas, sejam estas de ordem física ou emocional, e o bruxismo é uma delas. Definido pela odontologia não exatamente como uma doença, mas como uma disfunção, é um hábito adquirido inconscientemente, que consiste em raspar, durante o sono, as superfícies dos dentes superiores contra os inferiores.
Pelo menos 40% da população mundial pratica bruxismo ou briquismo, como também é definido e, segundo o odontólogo Leonardo Trench, especialista em dor orofacial e em disfunção da articulação temporomandibular (ATM), “todo mundo já fez bruxismo um dia”. Na opinião dele, dizer com exatidão quantas pessoas apresentam o problema é muito difícil, já que “todas as pesquisas nessa área são calcadas em populações viciadas”, ou seja, na observação de pacientes que já apresentam os sintomas.
A palavra bruxismo deriva do francês “la bruxomanie”, numa analogia ao fato de se acreditar que o rangimento e trincamento de dentes é algo inerente a bruxos. O termo foi utilizado pela primeira vez em 1907. Patologia de ocorrência comum, o bruxismo é encontrado em todas as faixas etárias, com prevalência maior nas mulheres. Responsável pela coordenação do ambulatório de dor da Associação Brasileira de Odontologia – Bahia (ABO-BA), Leonardo Trench não se arrisca em afirmar que, de fato, as mulheres apresentem mais do que os homens tal comportamento. “Elas são mais cuidadosas com a saúde, procuram mais o médico e o dentista”, explica Trench, ao destacar que a faixa etária de maior incidência do bruxômano ou bruxista é entre os 20 e 45 anos.
Em crianças, o bruxismo é muito normal, segundo o especialista, durante a fase de troca da dentição. Contudo, ele alerta para a importância de os pais observarem se após este período o fenômeno ainda persiste. “Uma situação qualquer pode vir a deflagrar um processo traumático no psicológico ou, ainda, pode ser que a criança esteja desenvolvendo uma verminose”, explica.
Trench salienta que mesmo após ter iniciado o tratamento, “quando o paciente entra em período de estresse, volta a desenvolver a prática, pois o bruxismo deixa cicatrizes no sistema nervoso, por mais que esteja controlado”.
TRATAMENTO – O bruxismo causa um desgaste excessivo nos dentes, sendo o esmalte a primeira estrutura a ser afetada. É mais comumente severo nos dentes anteriores, não sendo um desgaste uniforme, isto quando se trata de dentes naturais. Já com indivíduos portadores de prótese total, pode ocorrer o inverso, sendo maior o desgaste nos dentes posteriores.
A frequência e a severidade do bruxismo podem variar e aumentar a cada noite. Quando noturno, o bruxismo envolve movimentos rítmicos semelhantes ao da mastigação, com longos períodos de contração dos músculos mandibulares. Esses movimentos, contrações, podem superar os realizados durante o esforço consciente, sendo causa de dor muscular e fadiga. Quando feito em estado de vigília, o nome muda para bruxomania.
Segundo o odontólogo especialista em cirurgia e traumatologia buco-maxilo-facial Fernando Antônio Bastos, uma das terapias mais empregadas, atualmente, para o alívio dos sinais e sintomas de disfunção da ATM associados ao bruxismo é a utilização de placas (acrílicas) interoclusais, que aumentam a dimensão vertical – medida entre a base do nariz e o queixo (mento).
Fernando Bastos relata que os hábitos (parafuncionais) que fogem ao funcionamento normal do complexo estomatugnático-boca, tais como roer unha, mascar chicletes, morder ou apertar objetos estranhos entre os dentes, devem ser considerados um vício concomitante do bruxismo e, portanto, devem ser eliminados durante o tratamento. Tais procedimentos põem os maxilares em funcionamento incessante e desnecessário, o que causa uma desordem mandibular e acarreta desconforto muscular facial.

Fernando avisa que o que foi perdido deverá ser reconstruído com materiais resinosos e adverte ainda que “é importante que a placa interoclusal seja produzida em consultório odontológico, com um profissional especializado”.
Até hoje, não se conhece um método de tratamento para eliminar permanentemente o bruxismo. Um atendimento multidisciplinar composto por profissionais de áreas diversas é o mais indicado pelos especialistas. Na ABO-BA, desde 2001, existe um serviço gratuito em dor orofacial para pessoas carentes, que são atendidas por psicoterapeuta, fonoaudiólogo, neurologista, ortopedista funcional dos maxilares, reumatologista, ortodontista, protesista, endodontista e periodontista.
Dos cerca de 40 pacientes assistidos semanalmente na ABO-BA, 14 apresentam bruxismo. As marcações de consulta estão encerradas e somente serão reabertas em julho de 2006.
Psicanálise atribui culpa ao estresse

Prótese é utilizada à noite, durante o sono
Na opinião da psicanalista Carolina Furtado, que trata, desde 2003, de pacientes com bruxismo, existe uma causalidade múltipla para explicar a ocorrência desta disfunção. Segundo ela, que trabalha paralelamente a odontólogos especialistas em dor orofacial, a psicanálise vai observar de que maneira se processa a relação do indivíduo com a vida e a descarga das tensões a que este é submetido.
Carolina detecta que o bruxismo surge, muitas vezes, nos momentos em que o paciente sente a necessidade de colocar para fora as tensões impostas pelo estresse diário e não consegue falar. “A doença aparece para expressar que algo não vai bem, sobretudo nas pessoas que não conseguem colocar para fora o que lhes incomoda”, explica.
A partir da psicanálise, segundo a profissional, a pessoa começa a se dar conta de que podem existir fatores psíquicos que acarretam o mal. “Não adianta apenas usar a placa de proteção. Ela acaba apenas funcionando como um paliativo”, advertiu Carolina, ao apontar que é fundamental, na verdade, que o bruxômano adote uma mudança de posicionamento diante da vida e da maneira de como enfrenta seus desafios.
O processo psicanalítico possibilita, através da própria fala de quem sofre de bruxismo, o afloramento das razões que causam esta disfunção. “Enquanto fala, o paciente coloca em palavras o que vinha, até então, expressando no ato de morder ou ranger os dentes”, frisou Carolina. Ela disse que os processos acontecem de maneira inconsciente e que as pessoas não conseguem, sem uma investigação terapêutica, se dar conta de por que desenvolvem tal comportamento.
Exame detalhado confirma diagnóstico
Há dois anos, uma enxaqueca constante levou a economista Patrícia Costa Oliveira, de 34 anos, a procurar o neurologista André Muniz, que imediatamente diagnosticou que a causa das suas dores estavam relacionadas ao bruxismo e a uma disfunção da articulação temporomadibular. “Só de tocar na minha face ele percebeu que meu caso era bruxismo, por causa da rigidez característica neste local em quem tem esse costume”, disse Patrícia. Uma bateria de exames mais detalhados confirmou o quadro e ela, então, foi encaminhada a um especialista para dar início ao tratamento e também corrigir a densidade da mordida, que, segundo seus exames, é irregular.
Patrícia relata que depois que começou a usar a placa interoclusal sentiu um grande alívio, mas ainda é acometida por dores de cabeça e fadiga ao acordar. “Meu estresse me faz apertar os dentes, tanto acordada quanto dormindo e, de manhã, isso me causa, em períodos de muita tensão, uma sensação terrível de cansaço”, disse. Ela atribui a problemática ao desgaste emocional e às responsabilidades que lhe são impingidas pelo dia-a-dia. Patrícia confessa que, nos períodos de TPM, a pressão na mandíbula aumenta e brinca ao revelar: “Não posso ver um bocal de caneta que levo à boca para morder.”
A secretária Edileusa Bispo dos Santos, 30 anos, se deu conta, em 1996, de que algo não estava indo bem com sua boca. “Já quebrei um dente sadio de tanto apertar os dentes”, admite. Ela conta que a equipe multidisciplinar que cuida de seu caso não conseguiu identificar ainda se ela apresenta bruxismo porque tem arterite temporal ou se desenvolveu essa inflamação na artéria em função do bruxismo.
Edileusa já partiu três placas interoclusais enquanto dormia. Atualmente, ela utiliza um aparelho ortopédico para amortizar a força que imprime com os dentes e para corrigir a forma de mastigar. “Meu rosto incha, visivelmente, sinto muita dor no maxilar, na nuca e no ouvido e, por conta da arterite, várias partes do meu corpo também incham”, comentou Edileusa. Ela diz que é obrigada a fazer uso de medicação para relaxar a musculatura facial antes de dormir e que mesmo assim ainda acorda com a sensação de que não descansou durante a noite.
(Matéria foi publicada na edição de 18/09/2005, no Jornal A TARDE
